segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Educação, relações étnico-raciais e a Lei 10.639/03

25/08/2011

Educação, relações étnico-raciais e a Lei 10.639/03

Por Nilma Lino Gomes

Introdução

 
A Lei nº 10.639/03 que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileiras e africanas nas escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio; o Parecer do CNE/CP 03/2004 que aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileiras e Africanas; e a Resolução CNE/CP 01/2004, que detalha os direitos e as obrigações dos entes federados ante a implementação da lei compõem um conjunto de dispositivos legais considerados como indutores de uma política educacional voltada para a afirmação da diversidade cultural e da concretização de uma educação das relações étnico-raciais nas escolas, desencadeada a partir dos anos 2000. É nesse mesmo contexto que foi aprovado, em 2009, o Plano Nacional das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (BRASIL, 2009).

O percurso de normatização decorrente da aprovação da Lei nº 10.639/03 deveria ser mais conhecido pelos educadores e educadoras das escolas públicas e privadas do país. Ele se insere em um processo de luta pela superação do racismo na sociedade brasileira e tem como protagonistas o Movimento Negro e os demais grupos e organizações partícipes da luta antirracista. Revela também uma inflexão na postura do Estado, ao pôr em prática iniciativas e práticas de ações afirmativas na educação básica brasileira, entendidas como uma forma de correção de desigualdades históricas que incidem sobre a população negra em nosso país.

É sabido o quanto a produção do conhecimento interferiu e ainda interfere na construção de representações sobre o negro brasileiro e, no contexto das relações de poder, tem informado políticas e práticas tanto conservadoras quanto emancipatórias no trato da questão étnico-racial e dos seus sujeitos. No início do século XXI, quando o Brasil revela avanços na implementação da democracia e na superação das desigualdades sociais e raciais, é também um dever democrático da educação escolar e das instituições públicas e privadas de ensino a execução de ações, projetos, práticas, novos desenhos curriculares e novas posturas pedagógicas que atendam ao preceito legal da educação como um direito social e incluam nesse o direito à diferença

As ações pedagógicas voltadas para o cumprimento da Lei nº 10.639/03 e suas formas de regulamentação se colocam nesse campo. A sanção de tal legislação significa uma mudança não só nas práticas e nas políticas, mas também no imaginário pedagógico e na sua relação com o diverso, aqui, neste caso, representado pelo segmento negro da população.

É nesse contexto que a referida lei pode ser entendida como uma medida de ação afirmativa. As ações afirmativas são políticas, projetos e práticas públicas e privadas que visam à superação de desigualdades que atingem historicamente determinados grupos sociais, a saber: negros, mulheres, homossexuais, indígenas, pessoas com deficiência, entre outros. Tais ações são passíveis de avaliação e têm caráter emergencial, sobretudo no momento em que entram em vigor. Elas podem ser realizadas por meio de cotas, projetos, leis, planos de ação, etc. (GOMES, 2001).

É importante desmistificar a ideia de que tais políticas só podem ser implementadas por meio da política de cotas e que, na educação, somente o ensino superior é passível de ações afirmativas. Tais políticas possuem caráter mais amplo, denso e profundo. Ao considerar essa dimensão, a Lei nº 10.639/03 pode ser interpretada como uma medida de ação afirmativa, uma vez que tem como objetivo afirmar o direito à diversidade étnico-racial na educação escolar, romper com o silenciamento sobre a realidade africana e afro-brasileira nos currículos e práticas escolares e afirmar a história, a memória e a identidade de crianças, adolescentes, jovens e adultos negros na educação básica e de seus familiares.

Ao introduzir a discussão sistemática das relações étnico-raciais e da história e cultura africanas e afro-brasileiras, essa legislação impulsiona mudanças significativas na escola básica brasileira, articulando o respeito e o reconhecimento à diversidade étnico-racial com a qualidade social da educação. Ela altera uma lei nacional e universal, a saber, a Lei nº 9.394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) –, incluindo e explicitando nesta que o cumprimento da educação enquanto direito social passa necessariamente pelo atendimento democrático da diversidade étnico-racial e por um posicionamento político de superação do racismo e das desigualdades raciais. É importante compreender, então, que a Lei nº 10.639/03 representa uma importante alteração da LDB, por isso, o seu cumprimento é obrigatório para todas as escolas e sistemas de ensino. Estamos falando, portanto, não de uma lei específica, mas, sim, da legislação que rege toda a educação nacional.

Por mais que ainda tenhamos resistência em relação ao teor dessa Lei que altera a LDB e suas Diretrizes Curriculares, e por mais que o seu cumprimento ainda esteja aquém do esperado, é preciso reconhecer que a sua aprovação tem causado impactos e inflexões na educação escolar brasileira, como: ações do MEC e dos sistemas de ensino no que se refere à formação de professores para a diversidade étnico-racial; novas perspectivas na pesquisa sobre relações raciais, no Brasil; visibilidade à produção de intelectuais negros sobre as relações raciais em nossa sociedade; inserção de docentes da educação básica e superior na temática africana e afro-brasileira; ampliação da consciência dos educadores de que a questão étnico-racial diz respeito a toda a sociedade brasileira, e não somente aos negros; e entendimento do trato pedagógico e democrático da questão étnico-racial como um direito.

Conquanto um preceito de caráter nacional, a Lei nº 10.639/03 se volta para a correção de uma desigualdade histórica que recai sobre um segmento populacional e étnico-racial específico, ou seja, os negros brasileiros. Ao fazer tal movimento, o Estado brasileiro, por meio de uma ação educacional, sai do lugar da neutralidade estatal diante dos efeitos nefastos do racismo na educação escolar e na produção do conhecimento e se coloca no lugar de um Estado democrático, que reconhece e respeita as diferenças étnico-raciais e sabe da importância da sua intervenção na mudança positiva dessa situação.

Espera-se que, ao longo dos anos, o caráter emergencial dessa medida de ação afirmativa dê lugar ao seu total enraizamento enquanto lei nacional, a ponto de passar a fazer parte do imaginário pedagógico e da política educacional brasileira, e não mais ser vista como uma legislação específica. Nesse caso, entendida como Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, a Lei nº 10.639/03 poderá garantir aquilo que os defensores das ações afirmativas pleiteiam, ou melhor, que as políticas universais brasileiras incluam e garantam, de forma explícita, o direito à diferença.

As relações étnico-raciais
Todo esse processo e a própria existência da Lei nº 10.639/03 se localizam em um campo mais complexo e tenso, isto é, o contexto das relações étnico-raciais. Mas, afinal, o que queremos dizer com o termo “relações étnico-raciais” ao pensarmos em projetos, políticas e práticas voltadas para a implementação da Lei nº 10.639/03 enquanto uma alteração da Lei nº 9394/96 – LDB? São relações imersas na alteridade e construídas historicamente nos contextos de poder e das hierarquias raciais brasileiras, nos quais a raça opera como forma de classificação social, demarcação de diferenças e interpretação política e identitária. Trata-se, portanto, de relações construídas no processo histórico, social, político, econômico e cultural.

Mas o que queremos dizer com os conceitos raça e etnia quando os introduzimos na reflexão sobre as relações étnico-raciais? Nos limites deste artigo, destacaremos alguns aspectos considerados principais. O primeiro deles se refere à concepção de raça presente nesta reflexão.

Sociólogos, antropólogos, psicólogos sociais e educadores, bem como o Movimento Negro, quando usam o conceito de raça, não o fazem alicerçados na ideia de raças superiores e inferiores como originalmente foi usado pela ciência no século XIX. Pelo contrário, usam-no com uma nova interpretação que se baseia na dimensão social e política dele. E ainda o empregam porque a discriminação racial e o racismo existentes na sociedade brasileira se dão não apenas em razão dos aspectos culturais presentes na história e na vida dos descendentes de africanos, no Brasil e na diáspora, mas também graças à relação que se faz entre esses e os aspectos físicos observáveis na estética corporal desses sujeitos.

A forma como a raça opera em nossa sociedade possibilita, portanto, que militantes do Movimento Negro e um grupo de intelectuais não abandonem o conceito de raça para falar sobre a realidade do negro brasileiro, mas o adotem de maneira ressignificada. Nesse sentido, rejeitam o sentido biológico de raça, já que todos sabem e concordam com os avanços da ciência de que não existem raças humanas. O conceito de raça é adotado, nessa perspectiva, com um significado político e identitário construído com base na análise do tipo de racismo que existe no contexto brasileiro, as suas formas de superação e considerando as dimensões histórica e cultural a que esse processo complexo nos remete.

Não podemos negar que, na construção das sociedades, na forma como os negros e os brancos são vistos e tratados no Brasil, a raça tem uma operacionalidade na cultura e na vida social. Se ela não tivesse esse peso, as particularidades e características físicas não seriam usadas por nós para classificar e identificar quem é negro e quem é branco no Brasil. E mais, não seriam usadas para discriminar e negar direitos e oportunidades aos negros em nosso país.

É importante destacar que, nesse sentido, as raças são compreendidas como construções sociais, políticas e culturais produzidas no contexto das relações de poder ao longo do processo histórico. Não significam, de forma alguma, um dado da natureza.2 É na cultura e na vida social que nós aprendemos a enxergar as raças. Isso significa que aprendemos a ver as pessoas como negras e brancas e, por conseguinte, a classificá-las e a perceber suas diferenças no contato social, na forma como somos educados e socializados a ponto de essas ditas diferenças serem introjetadas em nossa forma de ser e ver o outro, na nossa subjetividade, nas relações sociais mais amplas. Aprendemos, na cultura e na sociedade, a perceber as diferenças, a comparar, a classificar. Se as coisas ficassem só nesse plano, não teríamos tantos complicadores. O problema é que, nesse mesmo contexto, aprendemos a hierarquizar as classificações sociais, raciais, de gênero, entre outras. Ou seja, também vamos aprendendo a tratar as diferenças de forma desigual.

O segundo aspecto a destacar, quando adotamos a expressão relações étnico-raciais para compreender as formas como negros e brancos se relacionam em nosso país, refere-se ao conceito de etnia. Geralmente, aqueles que o adotam o fazem por acharem que, se falarmos em raça, mesmo que de forma ressignificada, acabamos presos ao determinismo biológico, o qual já foi abolido pela biologia e pela genética.

É fato que, durante muitos anos, o uso do termo raça na área das ciências, da biologia, nos meios acadêmicos, pelo poder político e na sociedade, de modo geral, esteve ligado à dominação político-cultural de um povo em detrimento de outro, de nações em detrimento de outras, e possibilitou tragédias mundiais, como foi o caso do nazismo. A Alemanha nazista utilizou-se da ideia de raças humanas para reforçar a sua tentativa de dominação política e cultural e penalizou vários grupos sociais e étnicos que viviam na Alemanha e nos países aliados ao ditador Hitler, no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O reconhecimento dos horrores causados durante a Segunda Guerra Mundial levou à reorganização política das nações no mundo, a fim de se evitar que novas atrocidades baseadas na ideia biológica de raça fossem cometidas. Nesse momento, o uso do conceito de etnia ganhou força acadêmica para se referir aos ditos povos diferentes: judeus, índios, negros, entre outros. A intenção era enfatizar que os grupos humanos não são marcados por características biológicas, mas, sim, por processos históricos e culturais (GOMES, 2005).

Ao ser adotado, o conceito de etnia diz respeito a um grupo que possui algum grau de coerência e solidariedade, composto de pessoas conscientes, pelo menos de forma latente, de terem origens e interesses comuns. Sendo assim, um grupo étnico não é mero agrupamento de pessoas ou de um setor da população, mas uma agregação cônscia de pessoas unidas ou proximamente relacionadas por experiências compartilhadas (CASHMORE, 2000, p. 196). Ou ainda, a etnia refere-se a um grupo social cuja identidade se define pela comunidade de língua, cultura, tradições, monumentos históricos e territórios (BOBBIO, 1992, p. 449).

Para entender as relações estabelecidas pelos sujeitos negros na sociedade brasileira, a forma como se veem e são vistos pelo Outro, a construção e a lógica das classificações raciais e a vivência de experiências compartilhadas nas quais a descendência africana e negra se apresenta como uma forte marca, alguns teóricos indagam o alcance do conceito de etnia (sobretudo de forma isolada) para se referir ao negro brasileiro. Segundo estes, o conceito de etnia traz elementos importantes, porém, ao ser adotado de maneira desarticulada da interpretação ressignificada de raça, acaba se apresentando insuficiente para compreender os efeitos do racismo na vida das pessoas negras e nos seus processos identitários (GOMES, 2005).

Nesse complexo contexto teórico e político vem sendo adotada a expressão étnico-racial para se referir às questões concernentes à população negra brasileira, sobretudo, na educação. Mais do que uma junção dos termos, essa formulação pode ser vista como a tentativa de sair de um impasse e da postura dicotômica entre os conceitos de raça e etnia. Demonstra que, para se compreender a realidade do negro brasileiro, não somente as características físicas e a classificação racial devem ser consideradas, mas também a dimensão simbólica, cultural territorial, mítica, política e identitária. Nesse aspecto, é bom lembrar que nem sempre a forma como a sociedade classifica racialmente uma pessoa corresponde, necessariamente, à forma como ela se vê. O que isso significa? Significa que, para compreendermos as relações étnico-raciais de maneira aprofundada, temos de considerar os processos identitários vividos pelos sujeitos, os quais interferem no modo como esses se veem, identificam-se e falam de si mesmos e do seu pertencimento étnico-racial.

Palavras finais
Por tudo isso é que dizemos que as diferenças, mais do que dados da natureza, são construções sociais, culturais, políticas e identitárias. Aprendemos, desde criança, a olhar, identificar e reconhecer a diversidade cultural e humana. Contudo, como estamos imersos em relações de poder e de dominação política e cultural, nem sempre percebemos que aprendemos a classificar não somente como uma forma de organizar a vida social, mas também como uma maneira de ver as diferenças e as semelhanças de forma hierarquizada e dicotômica: perfeições e imperfeições, beleza e feiúra, inferiores e superiores. Esse olhar e essa forma de racionalidade precisam ser superados.

A escola tem papel importante a cumprir nesse debate. E é nesse contexto que se insere a alteração da LDB, ou seja, a Lei nº 10.639/03. Uma das formas de interferir pedagogicamente na construção de uma pedagogia da diversidade e garantir o direito à educação é saber mais sobre a história e a cultura africanas e afro-brasileiras. Esse entendimento poderá nos ajudar a superar opiniões preconceituosas sobre os negros, a África, a diáspora; a denunciar o racismo e a discriminação racial e a implementar ações afirmativas, rompendo com o mito da democracia racial.

Referências
BOBBIO, Norberto et al. Dicionário de política. Brasília: Ed. Universidade de Brasília, 1992.

BRASIL, Plano Nacional das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana. Brasília: SECAD; SEPPIR, jun. 2009.

BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino da História Afro-Brasileira e Africana. Brasília: SECAD/ME, 2004.

CASHMORE, Ellis. Dicionário de relações étnicas e raciais. São Paulo: Selo Negro, 2000.

GOMES, Joaquim B. Barbosa. Ação afirmativa & princípio constitucional da igualdade. Rio de Janeiro/São Paulo: Renovar, 2001.

GOMES, Nilma Lino. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no Brasil: uma breve discussão. Educação antirracista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/03. Brasília: MEC/SECAD, 2005. p. 39-62.

GUIMARÃES, Antônio Sérgio Alfredo. Racismo e antirracismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 1999.

Urgências na educação das comunidades quilombolas


Urgências na educação das comunidades quilombolas

Por Maria Auxiliadora Lopes

O preconceito racial existente na sociedade brasileira tem dificultado a realização de estudos sobre as condições socioeconômicas e culturais dos diferentes grupos étnicos que compõem a população do país. Em decorrência desse fato, alguns grupos enfrentam problemas que determinam sua marginalização e o difícil acesso aos benefícios sociais. Podemos citar, no enfrentamento deste quadro, as comunidades remanescentes de quilombos.

Para um melhor entendimento do que são os remanescentes de quilombos, o Decreto 4887/03 estabelece que: “Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a opressão histórica sofrida”.

Segundo dados da Fundação Cultural Palmares (2010), existem, no Brasil, em todas as Unidades da Federação, exceto no Acre, em Roraima e em Brasília, 1.436 comunidades remanescentes de quilombos certificadas. Os estados com maior número de comunidades remanescentes de quilombos são Maranhão (318), Bahia (308), Minas Gerais (115) Pernambuco (93) e Para (85).

Partindo do princípio de que as comunidades remanescentes de quilombos possuem dimensões sociais, políticas e culturais significativas, com particularidades no contexto geográfico brasileiro, tanto no que diz respeito à localização, quanto à origem, considera-se a necessidade de ressaltar e valorizar as especificidades de cada comunidade, quando do planejamento de ações voltadas para o seu desenvolvimento sustentável.

Conforme o Relatório da Situação da Infância e Adolescência Brasileira, Unicef 2003, 31,5% das crianças quilombolas de sete anos nunca frequentaram bancos escolares; as unidades educacionais estão longe das residências e as condições de estrutura são precárias, geralmente as construções são de palha ou de pau a pique; poucas possuem água potável e as instalações sanitárias são inadequadas. O acesso à escola para estas crianças é difícil, os meios de transporte são insuficientes e inadequados e o currículo escolar está longe da realidade destes meninos e meninas. Raramente os alunos quilombolas vêem sua história, sua cultura e as particularidades de sua vida nos programas de aula e nos materiais pedagógicos. Os professores não são capacitados adequadamente, o seu número é insuficiente para atender a demanda e, em muitos casos, em um único espaço há apenas uma professora ministrando aulas para diferentes turmas.

A questão da terra tem sido o principal obstáculo à implementação de políticas públicas destinadas às comunidades remanescentes de quilombos e motivo de perpetuação dos históricos conflitos pela posse e uso da terra.

De acordo com o censo escolar realizado em 2009, nas Comunidades Remanescente de Quilombos existem 200.510 alunos que são atendidos por 10.001 professores, atuando em 1.693 escolas. Chama a atenção que 61,59% das matrículas estão concentradas na Região Nordeste.

Pesquisas realizadas pelo Ministério da Educação, no exercício de 2008, em escolas localizadas nas comunidades remanescentes de quilombos, em municípios dos estados da Bahia, do Maranhão e de Minas Gerais apontam a necessidade da implementação de políticas públicas para estas comunidades. Apresentamos algumas recomendações que devem balizar o trabalho de educação nas comunidades:

1. Revisar a perspectiva ideológica da formulação de currículos, respeitando os valores culturais dos alunos da comunidade;

2. Atualizar regularmente o Censo Escolar com dados sobre alunos, professores e prédios das comunidades remanescentes de quilombo;

3. Criar Unidade Executora nos estabelecimentos escolares para que professores, alunos e pais possam participar da decisão da execução do Programa Dinheiro Direto na Escola, onde isso for possível;

4. Criar e manter mecanismos de aquisição de gêneros alimentícios, oriundos da própria comunidade quilombola, respeitando os hábitos alimentares, além da viabilização do transporte destes gêneros alimentícios até as escolas;

5. Fomentar a participação de representantes das comunidades quilombolas nas instituições que realizam o controle social, como o Conselho do FUNDEF, o Conselho da Alimentação Escolar e outros;
6. Orientar gestores, diretores, professores, servidores em geral na elaboração do PPP das escolas;

7. Oferecer aos professores cursos de formação inicial e continuada relacionados à Educação das Relações Étnico-raciais, de forma regular, face ao desconhecimento, comprovado nesta pesquisa, da Resolução nº1/2004 e do Parecer 03/2004;

8. Rever a estratégia de produção (tiragem) e de distribuição do material didático produzido pelo SECAD/MEC sobre a temática, para que realmente alcance o objetivo de chegar a todas as escolas das comunidades remanescentes de quilombos do Brasil.

As políticas de promoção da igualdade racial são meios eficazes de eliminar as taxas de desigualdade, pois uma educação de qualidade nas escolas quilombolas pode ser o passo principal para o respeito e valorização das identidades culturais do Brasil, de acordo com o Parecer CNE/CP nº 03, de 10 de março de 2004, e a Resolução (CNE/CP) nº 01, de 17 de junho de 2004.

Maria Auxiliadora Lopes é graduada em Pedagogia e História e Mestre em Educação. Desde 2003, trabalha na SECAD/MEC na área de políticas públicas, exercendo atividades de planejamento, elaboração, avaliação e acompanhamento de projetos, em especial voltados para a educação das relações étnico-raciais

12/09/2011 

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11. Arte

11.
Arte
 
A palavra arte vem do latim “ars”, que por sua vez corresponde ao termo grego “tékne”. Ambas as definições podem ser traduzidas como as técnicas, os meios para se criar, fabricar ou produzir algo. Mas o conceito de arte pode variar tanto na forma de ser produzida como na de ser recebida. Afinal, arte é o resultado da cultura de cada povo, dos valores, dos anseios e da subjetividade humana.
 
A arte pode revelar as tensões sociais, confrontos, interesses. Pode ser um reflexo da sociedade. Se a arte já foi capaz de revelar os conflitos de uma sociedade, também houve quem, através dela, superasse essas mesmas barreiras. Antônio Francisco Lisboa, também conhecido como Aleijadinho, era negro. E mesmo vivendo na escravocrata Ouro Preto do século 18 era reconhecido como um grande artista. Ele é, até hoje, o nosso maior mestre da escultura.
 
Joaquim Maria Machado de Assis é outro exemplo de superação. Nasceu no século 19, era filho de uma lavadeira e um pintor de paredes. E mesmo com todas as dificuldades que um negro enfrentava para ser letrado naquela época, acabou se tornando o maior escritor brasileiro de todos os tempos.
 
E a influência da África não acaba em samba. Aliás, sequer se restringe ao Brasil. Rock, jazz, blues, soul, hip hop, funk... a imensa maioria dos ritmos que tocam nas rádios e nos mp3 do mundo inteiro bebeu na fonte da música africana.
 
Em todo o país, existem projetos em arte-educação que vêm obtendo bons resultados no enfrentamento do preconceito e na promoção do multiculturalismo. Um deles acontece em Araraquara-SP, na escola estadual Antonio Lourenço Corrêa, que trabalha a educação artística mostrando aspectos tradicionais e modernos do continente africano. O ponto de partida foi a obra de Carybé, a partir daí religiosidade e diversidade entraram definitivamente no projeto pedagógico da escola.
 
Promover a autoestima, combater o preconceito e valorizar o multiculturalismo. Esses também são os objetivos da escola EMEF Amadio Daisy Fujiwara, em São Paulo. A escola atende a muitos alunos afro-descendentes que, no passado, tinham um histórico de terem passado por situações de racismo dentro e fora de sala de aula. Foi quando a escola decidiu iniciar um trabalho para combater essa situação, em 2001 com a oferta de livros paradidáticos para tratar da temática afrodescendente, inclusive o material de A Cor da Cultura, e, logo depois, apresentaram o guia de propostas curriculares e expectativas étnico-raciais para trabalhar na formação dos professores.
 
Segundo a professora Maria Cecilia Pinto Silva, a arte é um instrumento poderoso: “nós levamos as crianças ao teatro, ao cinema, eles veem vídeos, veem filmes na televisão, isso é muito importante para criança”. O trabalho com a imagem que as crianças fazem de si mesmas, se desenvolveu e se enriqueceu a partir dessas leituras.
 



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10. Multidisciplinaridade

 
10.
Multidisciplinaridade
 
 
O Brasil é um país de cultura diversificada, formado por gente de múltiplas cores, etnias, credos, ideias. Mesmo assim, até bem pouco tempo, a representação da sociedade brasileira era feita com famílias brancas apenas, com os negros aparecendo em situação de penúria, etc. O legado africano era frequentemente desvalorizado ou omitido.
 
Na tentativa de reverter essa situação, a Lei de Diretrizes e Bases foi alterada pela lei nº. 10.639, de 09 de janeiro de 2003, que determina a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileiras e Africanas e que esses conteúdos devem ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar da educação básica.
 
A África deu origem a diversos conhecimentos no passado e está ajudando a construí-los também para o futuro. É o que mostra uma iniciativa realizada em Porto Alegre, na Escola Estadual Dr. Victor de Britto, com um projeto que se destaca pela multidisciplinaridade envolvendo diferentes disciplinas, professores e alunos de várias idades. E que busca romper com a falsa ideia que os povos africanos não criaram civilizações, tecnologia e conhecimento; este é um dos grandes sustentáculos do racismo e do eurocentrismo ocidental, comenta a especialista Elisa Larkin.
 
Desde 2003, nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira. O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo inclui o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.
 
 
Ainda em Porto Alegre, uma iniciativa bem interessante foi a da Escola Municipal Dr. Liberato Salzano, que fica no bairro do Sarandi, que utilizou o episódio da Revolta da Chibata como inspiração para o projeto pedagógico multidisciplinar que culminou com a produção de vários documentários pelos alunos das turmas de sociologia e filosofia, história e artes.

9. Identidade

9.
Identidade
Ninguém é igual a ninguém. Mas ao longo da vida, a gente acaba descobrindo que tem pessoas mais parecidas com a gente e outras nem tanto. E é nessa relação de alteridade, no diálogo, no jogo de oposições e aproximações que formamos nossa identidade.
 
Às vezes a gente acaba pertencendo a este ou aquele grupo por escolha, mas certas características identitárias têm a ver com o país onde nascemos, a família de onde viemos, a cultura da qual fazemos parte, a língua que falamos, nosso gênero, nossa cor, etc.
 
Diferenças existem. Vão existir sempre. E é bom que existam. O problema é quando as diferenças servem para produzir preconceitos e desigualdades. É fundamental que a escola seja um espaço de valorização da identidade e da diversidade. E um dos passos é romper com a vinculação do negro à escravidão, como se a herança negra e africana ao Brasil se resumisse à mão de obra. Joaquim Nabuco disse: “Os negros deram um povo ao Brasil”. É o reconhecimento da função civilizadora dos negros no Brasil, como explica o escritor e professor Muniz Sodré. É a afirmação do patrimônio e dos valores civilizatórios afro-brasileiros e, consequentemente, da nossa humanidade e brasilidade.
 
Valorizar a identidade étnico racial dos alunos vem sendo um dos objetivos de uma iniciativa realizada no estado de São Paulo. O projeto pedagógico se chama “Minha e a sua identidade! Nossa diversidade”, do CEU EMEI Aricanduva, um dos vencedores da 4ª edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial.
 
Um dos desafios enfrentados pelos professores é a questão da religiosidade. E uma das alternativas foi utilizar a literatura e a música, assim a questão dos mitos africanos e da ancestralidade pode ser trabalhada de forma lúdica. A valorização da identidade pode trazer resultados surpreendentes não só em termos de aprendizado, mas também na forma como o aluno se coloca diante do mundo.
 
Já o projeto “Um pouco de nós, um pouco da África”, da Escola Bibliotecária Maria Luisa Monteiro da Cunha, em São Paulo, também um dos ganhadores da 4ª edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial, trabalha a questão da identidade através da arte! Os alunos foram convidados a confeccionar bonecos, cartazes e outros materiais que são guardados em caixas que servem como portfólios. Esta tarefa acabou contagiando toda a escola.
 
Gênero, raça, etnia, orientação sexual, origem geográfica, língua, religião, herança histórica, posicionamento político, comportamento alimentar, time de futebol, categoria profissional... É, vários aspectos sócio-políticos, históricos e culturais podem compor a identidade de um indivíduo. E as pessoas, que já não nascem iguais umas as outras, tornam-se ao longo da vida ainda mais únicas, originais, diferentes. E viva a diferença!

8. Educação Quilombola

 
8.
Educação Quilombola
 
A palavra quilombo tem origem na língua banto e se refere a um tipo de instituição sociopolítica militar conhecida na África Central, mais especificamente entre Angola e a atual República do Congo.
 
No Brasil escravocrata a palavra foi usada para designar comunidades organizadas por escravos negros fugidos, mas que também abrigavam índios e brancos pobres. Um dos quilombos mais conhecidos é o de Palmares, situado no interior de Alagoas, num local de difícil acesso. Formou-se por volta de 1595, ocupando um espaço territorial equivalente a um terço de Portugal, com cerca de 30 mil pessoas, lideradas por Zumbi dos Palmares. Possuía, além de casas, oficinas, olarias, templos religiosos, plantações e um conselho político e de defesa.
 
Os quilombos eram sociedades organizadas que plantavam o que precisavam comer, tinham hierarquia e eram livres para manifestar suas crenças, sua cultura.
 
Somente com a Constituição de 1988, o governo brasileiro reconheceu a legitimidade das comunidades remanescentes de quilombo e abriu o espaço legal para que elas lutassem pela posse coletiva de suas terras. Atualmente, existem cerca de 1436 comunidades remanescentes de quilombos, que abrigam cerca de 1 milhão e 300 mil brasileiros, em dados recentes da Fundação Palmares.
 
Para um melhor entendimento do que são os remanescentes de quilombos, o Decreto nº 4887/03 estabelece que:
 
Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos os grupos étnico-raciais, segundo critérios de autoatribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a opressão histórica sofrida.
 
Um dos grandes desafios de quem educa e forma alunos em comunidades remanescentes de quilombo é valorizar a tradição oral numa sociedade que prioriza a língua escrita.
 
Ubiratan D’Ambrosio, especialista em etnomatemática, afirma que a educação quilombola é realizada a partir de outros contextos culturais porque ela reconhece os saberes da criança ao chegar à escola. E os saberes ancestrais são as bases, as raízes daquela comunidade.
 
Para as comunidades quilombolas, o pensar e o fazer são indissociáveis; já a escola formal, ao contrário, valoriza o saber sobre o fazer. No projeto de ensino realizado no quilombo de Murumutuba, que fica no noroeste do Pará, o objetivo é associar o pensar e o fazer, valorizar as práticas do cotidiano dos quilombolas. E é isso que acontece no ensino da matemática, a etnomatemática.
 
Outra experiência rica de educação quilombola ocorre no Colégio Estadual Sinésio Costa onde é desenvolvido o projeto “Uma leitura da Cultura Negra Riachense” que é uma extensão da proposta do projeto “Rio das Rãs: origem, cultura e resistência numa comunidade quilombola”, 2º lugar na 2ª edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial.
 
Um dos principais objetivos do trabalho é o desenvolvimento do senso de pertinência social, pessoal e coletivo do aluno. E quando o aluno tem a possibilidade de conhecer o seu contexto histórico cultural, isso possibilita também o auto reconhecimento e ele vai legitimar os seus saberes históricos, culturais, artísticos.
 
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É um trabalho contínuo para minimizar o preconceito, porque o preconceito nasce na ignorância. “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar”, disse Nelson Mandela.

7. Religiosidade

 
 
7.
Religiosidade
A religiosidade africana na educação
 
A partir do século XVI, milhões de negros africanos, de diversas regiões, de culturas e línguas variadas. Em comum, sofreram a violência de serem arrancados de suas raízes, forçaram essas pessoas a recriarem para conseguir manter seus valores. Uma história que não se encerra com a abolição da escravatura.
 
A influência da religiosidade africana está em todas as manifestações artísticas e costumes populares.
 
A primeira constituição brasileira, de 1824, época do Império, dizia que o Brasil tinha uma religião oficial: a Católica. A prática de outras era restrita ao ambiente privado.
 
Nas primeiras décadas do século XX, umbandistas e candomblecistas eram perseguidos. A repressão mobilizou membros das religiões afro-brasileiras que se organizaram em movimentos sociais. Em 1988, a Constituição Federal finalmente sacramentou a liberdade religiosa, embora algumas religiões ainda sofram discriminação.
 
A lei 9394 diz que o ensino religioso é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental.
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A lei fala que são vedadas as formas de proselitismo, ou seja, está afirmando que não é papel da escola angariar adeptos para essa ou aquela religião, mas promover a diversidade e estimular a tolerância.
 
O trabalho na Comunidade Quilombola de Murumurutuba, em Santarém (PA), onde fica a Escola Municipal de Ensino Fundamental São Sebastião, é um exemplo disso. Neste projeto os saberes e fazeres da comunidade são a base para o ensino do português para os alunos de ensino fundamental. Jovens e adultos são instigados a trocar experiências e a conhecer sua comunidade através das histórias contadas pelos mais velhos.
 
A religiosidade só tem sentido na educação se for pra promover valores, valorizar a diversidade e estimular a tolerância. E, claro, também pode ser usada como uma grande ferramenta pedagógica. Como é o caso do projeto Griô, desenvolvido na CEMEI Vovô Zezinho e que obteve o Prêmio Educar para a Igualdade Racial, em sua 3ª edição.
 
“Griô significa contador de histórias, mas está além de ser um simples contador de histórias, um simples contar de histórias, é preciso ser, demonstrar através desse ato de contar histórias, toda a ancestralidade, toda a africanidade, neste indivíduo que está contando estas histórias”, disse a professora Rita de Cássia Santos.
 
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O mito de Oxalá, por exemplo, criador do homem e da mulher, é utilizado pelas professoras para trabalhar com as crianças da educação infantil noções sobre o corpo humano, gênero, suas características, semelhanças e diferenças.
 
A religiosidade de matriz africana e afro-brasileira é trabalhada através da comida, das plantas e ervas, da contação de histórias; assim a escola conseguiu aproximar os pais da instituição, ampliando o diálogo com a comunidade e contribuindo para uma educação mais efetiva, inclusiva e diversa.
 
Projetos como esses promovem a auto-estima e a tolerância através do uso pedagógico da religiosidade afro-brasileira.

6. Educação Infantil

6.
Educação Infantil
A valorização da diversidade étnica e racial na Educação Infantil.
 
O termo educação infantil remete a um conceito relativamente recente na História do Brasil. Creche, maternal, jardim de infância, escolinha... não eram espaços de educação.
 
Hoje, a Educação Infantil passou a ter o papel de cuidar e também educar. É a primeira etapa da Educação Básica, dever do Estado, opção da família e direito da criança. Esses princípios estão garantidos pela Lei de Diretrizes e Bases, o Estatuto da Criança e do Adolescente e pela Constituição Federal.
 
Como a desigualdade étnica e racial no Brasil chega tão cedo às salas de atendimento nessa etapa da educação?
 
Que sociedade é essa, afinal? E o que ela vem sinalizando sobre a nossa diversidade? Como será que os jornais e as revistas, por exemplo, costumam representar as crianças negras?
 
A sociedade já está mais atenta à necessidade de representar a diversidade étnica e racial brasileira seja nos brinquedos, seja na mídia. E esse caminho também vem sendo trilhado por algumas escolas.
 
Em 1996, a LDB passou a considerar a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação Básica, entendendo a criança como um sujeito histórico, produtor de sentido e inserido num contexto histórico e cultural.
 
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A Educação Infantil deve valorizar desde cedo auto-estima das crianças, a cultura negra e a diversidade étnica e racial dentro da escola. E esse é o caso do CEMEI Marrara, escola de São Carlos, cujo projeto pedagógico foi um dos vencedores quarta edição do Prêmio Educar para a Igualdade Racial.
 
Para tratar de uma temática tão complexa como o respeito à diversidade com alunos tão pequenos eles utilizaram atividades lúdicas como brincadeiras, contação de histórias e até aulas de culinária.
 
A primeira infância é um momento crucial na formação da identidade. Deve valorizar a auto-imagem das crianças e criar modelos que confirmem essas expectativas. O projeto Heranças e Valores Civilizatórios Afro-brasileiros desenvolvido na Escola Municipal Mário Quintana, em Diadema, é um exemplo, tendo sido o primeiro colocado na quarta edição do Prêmio Educar Para A Igualdade Racial, promovido pelo CEERT – Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (www.ceert.org.br).
 


 A valorização da vida e da cultura dos afrodescendentes é uma questão que está na pauta do dia de Diadema, a quarta maior cidade em número de população negra do país.
 
Além das atividades lúdicas, a escola realizou um trabalho com tranças, buscando a valorização da auto-imagem da criança negra. Deu tão certo, que todas as meninas, negras e não negras, adoram trançar seus cabelos!
 
Essas duas experiências de Educação Infantil provam que é possível valorizar a diversidade étnica e promover a equidade.
 

5. Religiosidade & Cultura

 
5.
Religiosidade e Cultura
 
 
Desde que o mundo é mundo, a religiosidade faz parte da rotina de todos os povos, das mais variadas culturas, porque a humanidade sempre buscou o sentido da vida e tentou entender o que acontece com a espécie após a morte. Por maiores que sejam as diferenças, uma regra é básica: qualquer religião visa conduzir os seus fiéis à prática do bem, trazendo junto os fundamentos do amor e o exercício da solidariedade.
 
O Brasil é uma nação laica, ou seja, não adota uma religião oficial. A própria constituição federal confere aos brasileiros o direito de escolher a sua fé ou até mesmo optar por não ter fé alguma. Habitamos um território plural, com católicos, muçulmanos, protestantes, umbandistas, judeus, espíritas, budistas, candomblecistas, evangélicos, taoístas e messiânicos, entre outras denominações, convivendo pacificamente. Mas será que ainda há quem associe certas religiões a pessoas de determinados tipos físicos ou a uma cidade específica do país?
 
Foi o que descobrimos ao pedir que vinte pessoas espetassem alfinetes no mapa, indicando em qual estado brasileiro havia um maior número de fiéis das religiões afro-brasileiras. O jogo incluía responder onde moravam mais pessoas que se assumiam negras. Ganha uma fitinha colorida do Bonfim quem responder que a Bahia foi eleita pelo júri popular nos dois casos. Um senhor lembrou muito bem que lá “fica o berço da civilização negra do Brasil”. Além de indicar a região como o lugar onde aportaram muitos navios negreiros, uma senhora justificou o orgulho dos baianos de serem negros: “Quando conhece a sua origem você não tem vergonha do que é”.
 
Apesar dos dois entrevistados terem razão, os resultados apurados pelo Censo Demográfico nos surpreenderam. O Rio Grande do Sul é a região com maior concentração de adeptos declarados das religiões afro-brasileira, com 1,63% da população. Apesar de conhecida por seus terreiros seculares e mães de santo famosas, a Bahia ficou em 13º lugar, com apenas 0,09%. Em contrapartida, 75% dos cidadãos baianos se declararam negros contra 13% dos gaúchos. Impressionado com as estatísticas?
 
Pois é. Quase metade da população é afro-descendente e apenas 0,34% dos brasileiros professam as religiões afro-brasileiras, o que significa que nem todos os negros cultuam as entidades do Candomblé e da Umbanda. Mais do que isso. Basta dar uma espiada nas casas-de-santo para perceber que há muitos brancos seguindo estas religiões, alvos freqüentes de intolerância e preconceito. Para os adeptos do Cristianismo, por exemplo, elas nem são consideradas religiões, mas seitas.
 
“Pela lei toda e qualquer organização que se autodenomine uma associação religiosa é uma religião. Para o Direito, não existe a noção de autêntica ou falsa. Todas elas devem receber o mesmo grau de respeito, embora saibamos que, na prática, não vigore esta igualdade”, define o advogado Hédio Silva Júnior, doutor em Direito Constitucional pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). “Nos últimos anos, no entanto, nenhuma religião obteve tantas vitórias nos tribunais como aquelas de matriz africana”, diz.
 
E embora as religiões acumulem na sua essência valores como bondade e amor ao próximo, diversas crenças foram açoitadas pela sociedade. Vamos aos fatos: na época do Império Romano, os cristãos eram atirados aos leões. Entre os séculos XIII e XVIII, a Inquisição perseguia protestantes, judeus e muçulmanos. Já no século XX, os regimes fascistas e nazistas condenaram à morte cerca de 6 milhões de judeus. E em pleno século XXI, ainda testemunhamos, perplexos, cenas de guerras de cunho religioso. Sobram exemplos em todas as civilizações de que o homem, usando em vão o nome de Deus, ainda vitima seus semelhantes. Como podemos agir para interromper este rastro sangrento da história?

Para saber mais

Mitologia dos Orixás
Reginaldo Prandi
Companhia das Letras, 2000


Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana
Nei Lopes
Summus / Selo Negro, 2004


Lendas africanas dos orixás
Pierre Verger e Carybé
Corrupio, 1987


O candomblé da Bahia
Roger Bastide
Companhia das Letras, 2001


Religiões negras - negros bantos
Edison Carneiro
Civilização Brasileira, 1991


Batuque, samba e macumba – Estudos do gesto e do ritmo [1926 – 1934]
Cecília Meireles
Martins Fontes, 2003


Dicionário de Arte Sacra e Técnicas afro-brasileiras
Raul Lody
Pallas, 2003


A busca da África no candomblé – Tradição e poder no Brasil
Stefania Capone
Pallas e Contracapa, 2004


Todos os santos são bem-vindos
Monique Augras
Pallas, 2005


O negro no futebol brasileiro
Mário Filho
Faperj e Mauad, 2003


O reino dos mestres – A tradição da Jurema na umbanda nordestina
Luiz Assunção
Pallas, 2006-04-25


Iemanjá – A grande mãe africana do Brasil
Armando Vallado
Pallas, 2002


Iniciação de muzenza nos cultos bantos
Ornato J. Silva
Pallas, 1998


Caminhos de Odu
Agenor Miranda Rocha
Pallas, 1998


Igbadu – A cabaça da existência – Mitos nagôs revelados
Adilson de Oxalá
Pallas, 1998


666 Ebós de Odu – Para todos os fins
Adilson de Oxalá
Pallas, 2005


O banquete do Rei - Olubajé - à música sacra afro-brasileira
José Flávio Pessoa de Barros
Pallas, 2005


A fogueira de Xangô, o orixá do fogo – Uma introdução à música sacra afro-brasileira
José Flávio Pessoa de Barros
Pallas, 2005


Ewé Órisá
José Flávio Pessoa de Barros e Eduardo Napoleão
Bertrand Brasil, 1998


Lendas da Criação – A saga dos Orixás
Rubens Saraceni
Madras, 2005

 

4. Corpo

 
4.
Corpo
 
 
Por que será que todos os livros que tratam do tema ‘corpo humano’ mostram exclusivamente corpos brancos? Será que os negros são diferentes por dentro ou é apenas uma questão de preconceito por parte dos livros? A fim de descobrir se os brancos diferem anatomicamente dos negros, fizemos uma série de radiografias cujos ‘pacientes’ eram um negro e um branco. Estes raios x foram mostrados para pessoas que circulavam num determinado centro cultural e que deveriam identificar a cor das pessoas radiografadas. Adivinha o que elas responderam?
 
Um rapaz branco disse que “não tem como ver a pele da pessoa porque um raio x é uma fotografia de ossos”. Outro rapaz com a pele bem clara também comentou que era impossível definir porque “a única diferença entre ambas as raças é a melanina”. Uma moça branca reconheceu que “não tem como saber a cor”. Muito bem. Um jovem branco, no entanto, ponderou que um “nariz largo pode ser afro” diante de um raio x e houve uma mulher negra que arriscou um palpite: “Acho que essa chapa é de uma pessoa branca por causa da mandíbula afilada”.
 
Dois pulmões, um fígado, um estômago, um coração, a mesma quantidade de ossos. Tudo que existe no corpo de um branco também pode ser encontrado no corpo de um negro. Daí a dificuldade das pessoas em identificar, a partir de uma radiografia, qual a etnia do dono dos ossos fotografados. Esta mesma pesquisa poderia ter sido feita com amostras de sangue porque as respostas seriam as mesmas. Isso porque negros, brancos, pardos e até albinos fazem parte de uma única espécie: a humana.
 
Se não há diferenças por dentro, como explicar as diferenças que vemos por fora? Na cor da pele e na textura do pelos de todos os seres humanos há um pigmento amarelo-escuro chamado melanina, que é produzido com a função de nos proteger dos raios solares. Na presença de grande concentração de melanina, a pele humana adquire uma tonalidade marrom ou preta. Em baixas quantidades, a pele assume um tom branco-rosado.
 
Portanto, a única diferença entre negros e brancos está na variação da quantidade de uma substância. É ou não é um motivo muito pequeno, que não justifica as grandes diferenças sociais entre as duas raças? “Aqui no Brasil, o preconceito é de marca, não de origem. Então, são seus traços, seu cabelo, a cor da sua pele, as linhas do seu rosto que indicam que você é negro e é essa a marca que propicia a discriminação”, explica Maria Aparecida Bento, doutora em psicologia e diretora do Centro de Estudos da Relação de Trabalho e Desigualdade (CEERT).
 
Para saber mais

Corpo: Território da cultura
Maria Lúcia Bueno e Ana Lúcia de Castro (Org.)
Annablume, 2005


Jóias de Axé – Fios-de-contas e outros adornos do corpo – A joalheria afro-brasileira
Raul Lody
Bertrand Brasil, 2001


O que é racismo?
Joel Rufino
Brasilense, 1985


Tornar-se negro
Neuza Santos Souza
Graal, 1983


O jogo das diferenças
Luiz Alberto Oliveira Gonçalves e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva
Belo Horizonte: Autêntica, 1998


Racista, eu? De jeito nenhum...
Mauricio Pestana
Escala, 2004


Raça como retórica – A construção da diferença
Yvonne Maggie e Claudia Barcelos Rezende (Org.)
Civilização Brasileira, 2002


A persistência da raça – Ensaios antropológicos sobre o Brasil e a África Austral
Peter Fly
Civilização Brasileira, 2005


O sortilégio da cor – Identidade, raça e gênero no Brasil
Elisa Larkin Nascimento
Selo Negro, 2003


A invenção do ser-negro – Um percurso das idéias que naturalizaram a inferioridade dos negros
Gislene Aparecida dos Santos
Pallas, 2002